Capítulo Um: Uma Outra Vida
A existência precede a essência; a essência do homem é determinada por sua livre escolha. — Sartre
Sun Chengfeng, na verdade, não compreendia bem por que, ao despertar, seu corpo encontrava-se tão pesado, acompanhando-se de uma mente enevoada, a ponto de até mesmo abrir os olhos parecer um fardo insuportável. Em teoria, sendo ele professor universitário, já deveria estar habituado a noites em claro dedicadas à pesquisa e à preparação de aulas; seu corpo não deveria manifestar tamanho protesto.
“Talvez eu precise mesmo de um tempo de descanso”, suspirou Sun Chengfeng em pensamento, esforçando-se para abrir os olhos em busca de algum remédio, apenas para descobrir que estava deitado em uma cama de hospital.
“Como assim? Será que cheguei ao ponto de desmaiar de cansaço e fui trazido ao hospital?” Antes mesmo que pudesse reagir, viu ao lado de sua cama um casal olhando-o com olhos radiantes de alegria, chamando o médico em altos brados, em inglês. Nesse instante, uma torrente de memórias irrompeu em sua mente, e Sun Chengfeng, incapaz de suportar tal avalanche, desmaiou novamente.
Em meio à vertigem, Sun Chengfeng sentiu-se imerso num sonho. No sonho, ele não era o orfão de trajetória ordinária que crescera num orfanato; ao contrário, possuía uma família feliz e completa, além de um talento prodigioso para a compreensão e memorização.
Contudo, tudo isso foi dilacerado por um acidente automobilístico repentino: seus pais, na ânsia de protegê-lo, perderam a vida. Preso nos destroços, incapaz de mover-se, Sun Chengfeng, no último sopro de consciência, conseguiu discar um número de telefone antes de desfalecer por completo.
“Pelo visto, ele não conseguiu ser salvo.” Ao despertar, Sun Chengfeng, enquanto respondia às perguntas do médico, prestou suas últimas homenagens ao antigo proprietário daquele corpo, sentindo-se, ele próprio, como alguém que só compreende o significado do sonho ao acordar dentro dele.
Ainda que ignorasse o motivo de ter-se tornado aquele outro, Sun Chengfeng decidiu, em seu íntimo, viver dali em diante não apenas por si, mas também por aquele a quem sucedera.
Poucos dias após receber alta, Sun Chengfeng foi acolhido temporariamente pela família vizinha — o mesmo casal que vira ao despertar. Eram coreanos, amigos íntimos dos pais chineses de Sun Chengfeng; as duas famílias mantinham laços estreitos, com freqüentes visitas mútuas, e as crianças nutriam entre si uma afeição singular. Não por acaso, o número discado por Sun Chengfeng antes de desmaiar era o da filha mais nova dessa família.
Nesses dias após o hospital, Sun Chengfeng foi aos poucos compreendendo o novo mundo em que se encontrava: um universo paralelo, notavelmente semelhante ao seu, embora com notórias lacunas no desenvolvimento da literatura e das artes. Em linhas gerais, porém, os rumos históricos eram análogos.
Sun Chengfeng não se preocupava com a possibilidade de alcançar as glórias de outros transmigradores; sua confiança era sólida, pois, além de ser professor universitário de Literatura Comparada e Literatura Mundial, dotado de vastos conhecimentos, encontrava-se agora em um mundo onde as artes literárias ainda engatinhavam. Ademais, herdara de seu novo corpo uma inteligência incomum, notável capacidade de compreensão e memória prodigiosa. E, como se não bastasse, descobriu em sua mente um mecanismo que lhe permitia acessar o motor de busca de seu antigo mundo.
Mesmo assim, não sentia entusiasmo ou euforia diante das perspectivas de fama e sucesso. O que habitava seu peito era apenas o desalento e a estranheza frente àquele mundo, tal qual Meursault, o protagonista de “O Estrangeiro” de Camus, sentia-se deslocado, estrangeiro à própria existência.
Em verdade, os tios coreanos tratavam-no com extrema gentileza, e tudo o que possuía lhe garantia um futuro promissor. Antigo órfão e homem de vida simples, Sun Chengfeng deveria estar pleno de gratidão, mas o que experimentava era apenas confusão e desorientação.
“Olá, fiz estes bombons de chocolate, quer provar?” Uma voz melodiosa soou-lhe aos ouvidos — era a filha mais nova da casa, a salvadora que atendera àquele telefonema fatídico.
“Obrigado, mas não precisa”, respondeu ele.
“Coma um pouco, você está com uma aparência péssima.” Sem lhe dar escolha, a menina colocou-lhe o chocolate nas mãos e sentou-se a seu lado com naturalidade.
“Papai e mamãe disseram para não perturbá-lo, pois você precisa de silêncio, mas acho que conversar faz melhor.”
“Por quê?” questionou Sun Chengfeng, que, somando a idade física e a mental, já era um homem maduro, olhando curioso para aquela menina de seis anos.
Quis ouvi-la — não apenas porque, em suas memórias, ela era gentil e adorável, mas também por ter sido a salvadora do antigo ocupante daquele corpo e, de algum modo, a portadora de sua nova vida. E, é claro, porque uma garotinha de seis anos falando com tamanha seriedade era, por si só, algo digno de nota.
“Porque o modo como você nos olha é estranho, como se viesse de outro mundo.” A perspicácia da criança fez Sun Chengfeng arquear levemente as sobrancelhas:
“Apenas… estou confuso, sem saber o que fazer, ou, talvez, sem clareza sobre quem sou.” Após breve hesitação — talvez movido pelo peso da angústia — Sun Chengfeng confidenciou-lhe, em parte a sério, em parte em tom de desabafo, seus pensamentos.
“Então deixe que eu lhe diga.”
“Oh? Então, diga: quem sou eu, e o que deveria fazer?”
Por um instante, Sun Chengfeng quase acreditou que aquela menina de seis anos também era uma transmigradora, embora viesse a descobrir, nos dias seguintes, tratar-se apenas de uma criança sensível, madura e de coração generoso.
“Você é meu irmão! Agora vamos viver juntos para sempre; como irmão, sua missão é proteger sua irmã, não é?”
A menina largou o chocolate e fitou Sun Chengfeng com olhos brilhantes como estrelas; ele sentiu que aquele olhar trespassava-lhe o corpo, atingindo-lhe a alma.
Deus criou o homem e conferiu-lhe um sentido. Ora, se essa menina, que em certo sentido me concedeu uma nova vida, me oferece um propósito, não deveria eu aceitá-lo? Ou, quem sabe, tentar não faria mal algum…
“É claro, esse será o sentido da minha vida daqui por diante.”
Muitos anos depois, ao recordar essa cena, Sun Chengfeng ainda agradeceria à sua irmãzinha. Talvez fossem apenas palavras pueris, ditas do ponto de vista de uma criança, com a intenção de confortá-lo, sem maior significado.
Mas, para Sun Chengfeng daquele momento, aquela frase foi como uma âncora, permitindo-lhe firmar-se naquele mundo estranho, em vez de perder-se ao sabor das ondas.
“Vamos nos apresentar de novo, então. Meu nome é Sun Chengfeng, nascido em 5 de março de 1989, tenho onze anos e sou seu irmão.”
Ergueu a mão, como se aguardasse algo.
“Certo! Eu sou Sun Chengwan, nascida em 21 de fevereiro de 1994, tenho seis anos e sou sua irmã.”
A menina levantou a mão e selou a apresentação com um sonoro bate-mãos. Só então Sun Chengfeng se deu conta, tardiamente, de que o chocolate era, de fato, muito doce.