Capítulo Um Mais Uma Vez Expulsa e Enviada de Volta para Casa
Cheng Lingsu orientou-se, esporeou o cavalo e galopou furiosamente por mais de uma hora, até que o vento que lhe cortava os ouvidos trouxe consigo, por entre os murmúrios, o som distante de relinchos, o estalar de bandeiras ao vento e o brado de batalhas travadas. A areia e o pó que vinham de encontro tornaram-se mais densos e pesados. Ela segurou as rédeas, passou o dorso da mão para limpar o pó do rosto e observou ao redor. Ao noroeste, divisou uma elevação de terra, destacando-se da planície, e, sem hesitar, girou o cavalo e subiu ao topo de uma só vez.
Era o lusco-fusco do entardecer. No horizonte, onde céu e terra se fundiam, restava ainda um filete tênue de luz escarlate, vermelha como sangue, ardente como fogo. Do alto da colina, Cheng Lingsu lançou o olhar à distância e viu, espalhados por todo o vasto campo, incontáveis fogueiras e archotes acesos, pontilhando a noite como estrelas que iluminavam toda a estepe.
Embora tivesse vivido uma vida a mais do que as pessoas comuns, ainda assim, na existência anterior, fora apenas uma jovem de menos de dezoito anos; mesmo tendo passado pela morte, jamais presenciara o confronto de dois exércitos. Ante a vastidão de tropas e cavalos que se descortinava, por mais calma que fosse, não pôde evitar um leve suspiro de espanto.
Apertando o olhar, divisou, no centro do cerco de milhares de soldados, uma elevação semelhante àquela em que agora se encontrava. Sobre ela, uma multidão se aglomerava, e uma imensa bandeira branca de longos pelos tremulava furiosamente ao vento, seu estalido cortando o ar com tal vigor que parecia atravessar o clamor de mil tambores e gritos, reverberando por toda a pradaria.
Era o estandarte de Temujin!
Contudo, a distância era por demais grande; por mais que Cheng Lingsu se esforçasse, não conseguia distinguir os rostos dos que se achavam sobre o monte. Apenas, por entre algumas silhuetas familiares que se moviam de um lado para outro, pôde adivinhar que seriam os Seis Estranhos de Jiangnan e Guo Jing; de vez em quando, o brilho frio de lâminas cortava o breu, sinal de que lutavam corpo a corpo.
Temujin, crendo tratar-se de conversações sobre casamentos entre filhos, saíra do acampamento acompanhado de apenas algumas centenas de homens. Diante da desproporção avassaladora entre os exércitos, ainda que cada um de seus companheiros fosse um mestre supremo em artes marciais, protegê-lo em meio a milhares seria tarefa quase impossível. Ademais, os Seis Estranhos de Jiangnan, não sendo de todo invencíveis, e tendo em mente a autopreservação, dificilmente conseguiriam resistir caso Sankun e Jamuka soassem a corneta do ataque.
Cheng Lingsu, observando a cena, não pôde refrear a ansiedade. Voltou-se inúmeras vezes na direção do acampamento de Temujin — aquela colina, favorável à luz do dia, era de fácil defesa e difícil acesso, mas, ao cair da noite… Se as tropas de Tolui não chegassem logo, seria tarde demais…
Foi então que, sob o último raio do crepúsculo, uma nuvem de poeira ergueu-se ao longe: parecia que dezenas de milhares de cavaleiros avançavam em carga. O flanco mais próximo ao exército de Sankun imediatamente se desorganizou.
Ao divisar a bandeira de Tolui à frente das tropas, Cheng Lingsu sentiu o coração aliviar-se; só então percebeu as palmas suadas que mantinham firmes as rédeas e o chicote do cavalo.
De temperamento normalmente calmo, era, contudo, de uma lealdade inquebrantável. Embora não quisesse perder em Temujin o escudo da estepe, e bem soubesse a intenção do líder em casá-la com Doshi, ao longo de dez anos pudera sentir, sem dúvidas, o afeto paternal que ele lhe dedicara. Mesmo que tal afeto trouxesse consigo certa culpa quanto ao seu enlace, como poderia ela, que o chamava de “pai” há uma década, permanecer indiferente à sua sorte?
Ao vislumbrar a desordem crescente entre os cavaleiros de Sankun, Cheng Lingsu soltou um longo suspiro, desviou o olhar e, sem mais delongas, desceu pelo outro lado da colina, em direção ao acampamento.
Tal batalha ofereceu a Temujin o pretexto para lançar-se contra Wang Khan. Não apenas triunfou com menos sobre mais, rompendo o cerco das tropas unidas de Wang Khan e Jamuka, como, não fosse por Wanyan Honglie, acompanhado de hábeis mestres lutadores, talvez até mesmo o ilustre Sexto Príncipe da Dinastia Jin teria ali encontrado seu fim.
Quando Tolui contou-lhe tais notícias, Cheng Lingsu lembrou-se, de súbito, de Ouyang Ke, enlevado nos aromas de flores embriagadoras, e não conteve um leve sorriso.
Com sua habilidade marcial, o efeito do “Incenso de Tihú” não duraria muito; não corria risco de vida no campo de batalha. Mas, se soubesse que fora ela quem libertara Tolui, causando tamanha reviravolta, como reagiria?
Vendo-a contente, Tolui, exultante, anunciou: “Tenho notícias ainda melhores; você não precisará mais casar-se com aquele Doshi, e trouxe-lhe um presente.” Apontou, então, para o grande baú de madeira que os seus soldados haviam posto diante da tenda de Cheng Lingsu.
Ela, ao vê-lo ostentando como caçador raro tesouro, não conteve um riso: “Se me faltasse algo, bastaria pedir a você ou ao papai, para quê tantos presentes…” Mas, ao abrir o baú, a palavra “presente” morreu-lhe nos lábios.
Dentro do baú não havia caça exótica, mas sim um homem vivo — e ainda por cima, alguém que Cheng Lingsu conhecia.
“Doshi?”
O outrora privilegiado e arrogante neto de Wang Khan encontrava-se agora encolhido dentro do baú, corpo coberto de poeira, impossível distinguir as vestes originais, o rosto marcado por sangue e feridas. Diante da súbita abertura, aquele pequeno tirano, sempre altivo, tremia como folha, tentando esconder-se num canto, balbuciando entre soluços.
“Sim, Doshi.” Tolui, orgulhoso, explicou: “Quando, dias atrás, segui papai e varremos os remanescentes de Sankun, deparei-me com esse pestinha no meio do tumulto. Pensei em matá-lo ali mesmo, mas, lembrando de todas as humilhações que você sofreu por sua causa, resolvi trazê-lo até você. Pode matá-lo, espancá-lo, o que quiser, para descarregar sua raiva.”
“Humilhação?” Cheng Lingsu não sentia que Doshi lhe causara qualquer humilhação. O casamento fora arranjado entre Temujin e Wang Khan; ainda que Sankun e Jamuka não tivessem se rebelado, jamais se submeteria docilmente a tal destino… Doshi, exceto pelo dia em que, acompanhando emissários, fora repreendido por ela, em nada lhe afetara.
“Então, posso mesmo dispor dele como quiser?”
“Naturalmente.”
“Muito bem,” disse Cheng Lingsu, estendendo a mão, “empreste-me sua espada.”
Tolui tirou a lâmina do cinto e entregou-lha.
Doshi enrijeceu-se de súbito, fitando Cheng Lingsu com olhar feroz, como lobo encurralado nas profundezas da estepe; o corpo, antes trêmulo, agora firme, só o peito arfando violentamente.
Cheng Lingsu, impassível, girou o pulso, manejando a lâmina com destreza, desenhando meio arco no ar.
O vento cortante do aço reluziu, mas Doshi manteve os olhos abertos, sem pestanejar.
O brilho gélido da lâmina durou um instante, mas pareceu eterno… a corda grossa que lhe prendia os pulsos partiu-se de pronto.
Doshi, atônito, não compreendeu o que sucedera. Não sabia quantos ferimentos tinha, mas sentiu claramente que a lâmina de Cheng Lingsu não lhe ferira em nada, nem sequer arranhara a pele.
“Hua Zheng! O que está fazendo?” O semblante de Tolui mudou; arrancou a espada das mãos dela e, num só golpe, colocou-a junto ao pescoço de Doshi.
Este, porém, parecia não perceber: continuava encolhido no baú, agora livre das amarras, mas imóvel, fitando Cheng Lingsu com um olhar entre o aturdido e o desolado.
Cheng Lingsu deixou que lhe tirassem a espada e, voltando-se, segurou levemente o pulso de Tolui: “Você prometeu que eu disporia dele…”
“Não era para libertá-lo…” replicou Tolui, apertando com força a empunhadura, os olhos relampejando hostilidade. “Se capturamos um lobo e o libertarmos, quem sofrerá serão as ovelhas do rebanho.”
“Ele não é propriamente um lobo…”, replicou Cheng Lingsu, sorrindo de leve. “Tolui-ge, se não fosse ele insistir em romper o noivado, não teríamos descoberto a tempo a trama de Sankun e Jamuka. Deixemos por isso mesmo…”
“Mas, e quanto a papai…” Tolui, sempre submisso à irmã, hesitou.
Cheng Lingsu, astuta, captou-lhe a inquietação. Doshi era neto direto de Wang Khan; sem o aval, ou ao menos o consentimento tácito de Temujin, Tolui jamais ousaria entregar-lhe tal prisioneiro importante.
“Eu mesma falarei com papai.”
“Deixa estar,” Tolui segurou-lhe a mão, ponderou por um instante e bateu com força no próprio peito. “Faça como quiser. Papai, deixe comigo.”
Palavras simples, mas para Tolui, que reverenciava Temujin como a um deus, jamais ousando contrariá-lo, dizê-las já era prova de grande afeto. O coração de Cheng Lingsu aqueceu. Desde o falecimento do mestre, o Rei dos Venenos, nunca mais sentira proteção tão plena.
Acostumara-se a enfrentar tudo sozinha, mesmo tendo tido um “irmão mais velho”… Pela primeira vez, imitando as filhas da estepe, estendeu os braços e abraçou Tolui.
Sabia que, embora ela o estimasse, raramente se permitia tal proximidade. Surpreso, Tolui demorou a reagir, mas logo a envolveu num abraço apertado.
No íntimo, Cheng Lingsu era uma jovem han. Deixou transparecer o sentimento por breves instantes; logo, constrangida, soltou-o e recuou dois passos, rosto levemente corado.
Tolui, porém, soltou uma gargalhada.
“Ah, quase esqueci! Papai pediu que eu lhe desse um recado.” Ordenou aos soldados que levassem Doshi para longe, para onde nem mesmo Temujin o pudesse ver. Voltando-se, deu-lhe uma palmada no ombro: “Papai disse: ‘À luz do dia, seja profunda e cuidadosa como um lobo; nas trevas da noite, tenha a perseverança do corvo.’”
O coração de Cheng Lingsu estremeceu: “Papai disse isso especialmente para mim?”
“Sim,” Tolui assentiu. “Na época, papai queria casá-la com Doshi porque Wang Khan era poderoso e precisávamos suportar. Ele disse que esperava que você compreendesse tal razão.”
Cheng Lingsu permaneceu silenciosa. Temujin jamais falava à toa; suportar as adversidades era sensato. Mas… e quanto à “profundidade e cautela”?
Ao longo de dez anos, viveu de modo discreto; interveio em segredo para salvar ou proteger, sem chamar a atenção de Temujin. Exceto, talvez, pela visita de Doshi…
E agora, Doshi caíra primeiro nas mãos de Temujin…
Cheng Lingsu baixou os olhos, tomando, em silêncio, uma decisão.
Nota da autora: As palavras originais de Temujin: “À luz do dia, seja profundo e cuidadoso como um lobo! Na escuridão da noite, tenha a resistência de um corvo!”
Logo, a despedida da estepe~
Ouyang Ke: Ei, ei, ei! Eu, tão belo e encantador… e nem um lampejo de cena para mim!
Lua Cheia
Ouyang Ke: Ei!
Lua Cheia: Auuuu — aquele era o leque de ferro negro! Tive concussão… buá buá buá —