Capítulo Um: Nostalgia da Terra Natal
Segundo consta nos antigos registros, em certa região do Continente de Shenzhou, há relatos do surgimento de uma misteriosa raça proveniente de além dos céus, que por meios extraordinários tornou-se poderosa. Diz-se que tais povos cultivavam a energia espiritual, praticavam artes mágicas ou gravavam inscrições em talismãs, tudo em busca da imortalidade, ou mesmo da ascensão ao panteão dos deuses e imortais.
Ninguém sabe ao certo quando a energia espiritual começou a florescer pelo continente de Shenzhou. Até mesmo os comuns, ao absorvê-la, sentiam o corpo e a mente revigorados, enquanto os cultivadores, por meio de técnicas ancestrais, guiavam-na para dentro de si, adquirindo habilidades que transcendiam as limitações humanas. Desde então, os habitantes do continente passaram a explorar e estudar os caminhos do cultivo; após milênios de busca incessante, a humanidade avançou cada vez mais nesse percurso, e há rumores de que alguns, de fato, alçaram voo e tornaram-se divindades. Não apenas os humanos, mas todas as criaturas do mundo podiam crescer incessantemente, nutridas pelas forças da natureza.
...
Reino Fengqing, Cidade de Ling
— Ayan, vá mais devagar, espere por mim!
— Mana, apressa-te! Mamãe ainda está à nossa espera!
Na rua movimentada, vendedores de toda sorte anunciavam seus produtos, num burburinho animado. Ling era uma pequena cidade do Reino Fengqing, sem o esplendor nem o bulício das grandes metrópoles, mas possuía seu próprio encanto sutil.
— Mamãe, o que a senhora comprou dessa vez? — O pequeno Moye, irmão de Moli, sorria travesso, puxando a manga da mãe, curioso para espiar o cesto.
— Ora, ora, comprei castanhas caramelizadas para vocês. Tomem, comam! — A mãe, com um sorriso resignado, como se já previsse o que aconteceria.
— Mãe, da próxima vez não compre mais! Assim ele fica mal acostumado! — Moli protestou, um tanto contrariada com o apetite voraz do irmão.
— Não tem problema, Ali, Ayan ainda é pequeno — respondeu a mãe, com doçura na voz.
— Mana boba, não vou dividir as castanhas contigo — retrucou o menino, abocanhando uma castanha, indignado.
— Moleque travesso, rebelando-se, é? — Moli estalou a palma na nuca do irmão e, de passagem, bagunçou-lhe os cabelos.
— Mana! Você despenteou meu cabelo! — reclamou Ayan, inflado.
— E daí? Vai me bater? Nhé nhé nhé...
— Se bater em mim de novo, vou contar para o irmão Gao. Vou dizer que você é uma fera que bate nas pessoas, daí ele não vai querer casar com você, hã! Aposto que ficou com medo! — provocou.
— Atrevido! Experimente dizer isso e eu te arrebento! — Moli fingiu ameaçá-lo, punhos erguidos.
— Mamãe, mamãe, viu? A mana está me batendo de novo! Assim ela vai ficar encalhada pra sempre!
— Quem disse que eu não vou casar? — Moli fitou-o com olhar feroz.
— Sim, sim, o irmão Gao vai se casar com você! Vocês ficaram noivos quando eram pequenos, coitado dele, vai ter uma esposa mandona! Hahaha!
— Ah! Ayan, eu vou acabar contigo, quero ver até onde vai tua ousadia! — Entre risos e provocações, os dois voltaram para casa.
No caminho de volta, os últimos raios do poente ainda tingiam o céu, iluminando as três figuras que regressavam ao lar, envoltas em calor e alegria.
O vilarejo de Fuling, aninhado entre montanhas e rios, compunha-se de lares próximos uns dos outros, hortas nos quintais e galinheiros ao lado. Os moradores sobreviviam de algumas parcelas de terra, mas, na época de entressafra, os homens mais jovens e fortes partiam para caçar nas montanhas. Com sorte, ao abater uma besta demoníaca de baixo nível, podiam lucrar uma bela quantia.
Além do vilarejo, estendia-se uma cadeia de montanhas, que os anciãos chamavam de "Floresta Yueze". No coração desse bosque, dizia-se haver tesouros incontáveis, mas ninguém jamais ousara adentrá-lo: as bestas demoníacas do centro eram poderosas demais, e ninguém retornara com vida. Em contrapartida, nos arredores da floresta, as feras eram de baixo nível, mas já de grande valor — sua pele servia de agasalho, sua carne fortalecia o corpo.
As bestas demoníacas eram muito mais ferozes que os animais comuns, e um homem ordinário não seria capaz de abatê-las — somente os cultivadores podiam fazê-lo com facilidade. Moli jamais vira um cultivador, só ouvira os velhos do vilarejo contarem que eram capazes de voar pelos céus e matar um tigre com as próprias mãos. Não sabia ao certo se era verdade ou lenda.
Agora, em plena entressafra, o pai de Moli partira para a caça nas montanhas em companhia de outros caçadores experientes. Sua mãe, por sua vez, levava os bordados confeccionados nos últimos dias para vender no mercado, e Moli e Ayan costumavam acompanhá-la.
— Ali, Ayan, venham aqui ajudar! — ressoou de longe a voz poderosa do pai.
Moli e Ayan correram até o portão e viram o pai carregando nas costas um enorme alce, o dobro do tamanho dos cervos comuns.
— Uau! Papai, foi você que caçou? Que incrível! — Ayan exclamou, admirado, ajudando o pai a deitar o animal no chão.
— Haha! Hoje realmente tivemos sorte! Não sei o que esse alce havia comido, mas quando o encontrei, pensei que ia me atacar, e de repente caiu morto! — declarou o pai, orgulhoso.
— Papai, olha só, a barriga do alce ainda se mexe! Será que tem alguma coisa lá dentro? — Moli apontou, surpresa.
— Ayan, traga uma faca para o papai! — ordenou o pai, enquanto examinava o animal.
— Aqui está, papai.
O pai recebeu a faca e, ali mesmo, abriu o ventre da criatura. Moli e Ayan assistiram, retendo o fôlego diante do cheiro de sangue, mas sem desviar os olhos.
Logo, o pai retirou cuidadosamente um bolinho esbranquiçado, coberto de muco — uma pequena raposa branca.
— Que coisa rara! Ainda está viva! Ali, traga uma bacia com água para lavá-la.
Depois de lavada, a raposinha tornou-se ainda mais encantadora. Moli a acolheu nos braços com todo o carinho, relutante em deixá-la.
— Mana, deixa eu brincar um pouquinho! — Ayan pediu, suplicante.
— De jeito nenhum. Você vai deixá-la cair — retrucou Moli, firme.
— Não vou, prometo! Mana, deixa eu segurar só um pouquinho, por favor!
— Está bem, mas cuidado.
— Mana, vamos dar um nome pra ela? É tão branquinha e fofa... Que tal "Branca"?
— O quê? Branca? Que nome mais vulgar...
— Vulgar é você! Se não gostou, escolha um então!
— Vai se chamar "Castanha"! Afinal, você adora castanhas caramelizadas! — ironizou Moli.
— Bah, que nome horrível! — Ayan acariciava a raposinha, resmungando.
— Marido, que boa caça hoje! Esse alce tão robusto vai nos render um bom dinheiro! — Dona Tang entrou no pátio com a cesta de verduras, vinda da horta.
— Esposa, depois leve uma das pernas do alce para a família do irmão Gao, e também um pedaço para a vizinha, tia Ma. Se sobrar, amanhã levo para trocar por prata no povoado — sugeriu o pai.
O pai de Moli tinha um irmão de criação, senhor Gao, homem culto e respeitado, a quem se recorria para arbitrar os grandes assuntos do vilarejo. Contava-lhe a mãe que, em sua juventude, o pai salvara a vida desse amigo, e, em retribuição, foi selado o noivado entre Moli e o filho do senhor Gao, Gaoming. Quando Moli era pequena, o pai a levava, vez ou outra, à casa dos Gao, mas, desde que Gaoming foi avaliado, aos dez anos, com uma raiz espiritual de grau médio azul, as visitas rarearam.
No vilarejo de Fuling, todas as crianças, ao completarem dez anos, eram submetidas ao teste de aptidão para o cultivo. A aptidão era classificada em sete cores — vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta —, cada uma subdividida em inferior, médio e superior. A cada ano, poucos eram dotados do dom: menos de um em cada cem. Mesmo entre estes, a maioria ostentava apenas o grau vermelho; laranja e amarelo eram ainda mais raros. Por isso, quando Gaoming revelou talento excepcional, até o prefeito se impressionou e o enviou diretamente para o instituto da cidade. Se progredisse no cultivo, talvez um dia pudesse ser aceito na maior academia do Reino Fengqing, a "Academia Sagrada de Virtude", trazendo glória ao vilarejo.
Aos dez anos, Moli também fora submetida ao teste. A esfera de avaliação apenas brilhou com um tênue lampejo avermelhado, mal suficiente para qualificá-la como iniciante — e foi tida por todos como uma criança comum, sem talento algum. Ninguém notou, porém, que ao redor da tênue luz vermelha havia um delicado halo branco, tão sutil que nem Moli lhe deu importância.
Desde que Gaoming ingressara no instituto de cultivo, Gao Yude, seu pai, jamais visitara a família Mo novamente.
Todos no vilarejo sabiam do noivado entre Moli e Gaoming, e agora, com o rapaz destinado ao mundo da cultivação e seu futuro promissor, muitos murmuravam, abertamente ou pelas costas, que a família Mo estava tentando ascender socialmente. O pai de Moli, indignado com tais insinuações, chegou a procurar Gao Yude para romper o noivado, mas este recusou terminantemente. Preocupado com a reputação da filha, o pai jamais voltou a tocar no assunto.