Capítulo III: Retribuir o Bem com a Ingratidão

Mempersembahkan Ilmu Pengetahuan bagi Dunia Lain yang Indah Lu Bi 2165字 2026-03-15 14:49:55

— Ruby, você aí por acaso tem...

Moyona mordia o lábio, as longas pernas cruzadas com força. Após receber dois grandes frascos de medicação intravenosa, sentia-se um pouco melhor, mas um novo problema surgira: era embaraçoso demais pedir aquilo a alguém que mal conhecia, e ainda por cima a um homem.

— É perfeitamente normal precisar ir ao banheiro depois de absorver o remédio. Fica ali — Ruby indicou com o dedo uma pequena porta ao lado.

Moyona não perdeu tempo e entrou apressada, apenas para sair logo em seguida.

— Você está zombando de mim! — exclamou com as faces infladas de indignação. No interior do cômodo, além de uma espécie de obra de arte, não havia mais nada. Como poderia se aliviar ali?

— É ali mesmo.

— Quer dizer que você normalmente faz suas necessidades naquele bloco de pedra branca?

— Eu... Vocês, estrangeiros de outros mundos... Aquilo se chama porcelana.

Ruby ficou sem palavras, até que se lembrou: naquele mundo, não existiam privadas. “Pedra branca” era, na verdade, o termo técnico local para porcelana, cuja fabricação se perdera no tempo e era raríssima; os feiticeiros atuais já não conseguiam produzi-la, e os poucos exemplares remanescentes eram tratados como relíquias. Assim, Ruby conduziu Moyona até o banheiro e explicou em detalhes seu funcionamento.

— Não está mentindo para mim? Dá mesmo para fazer... aqui em cima? — Moyona olhava com hesitação para o vaso sanitário, alvo e reluzente como jade. Ainda que conhecesse o material, não deixava de ser um choque utilizá-lo para algo tão corriqueiro — era um desafio às suas convicções mais profundas.

— Quer que eu demonstre? — respondeu Ruby, já sem paciência. Aquele mundo tinha uma árvore tecnológica completamente torta: sem esgotos, as pessoas buscavam um canto discreto, desenhavam um simples círculo de purificação e... assim que o resíduo entrava em contato com o feitiço, desaparecia. Ruby pensava que quem inventara tal magia merecia um Nobel do Outro Mundo pelo serviço prestado.

— Não, não é necessário.

— Depois de urinar, aperte este botão, entendeu? — Ruby sabia que Moyona não saberia dar descarga, então, antes de sair, apontou para o botão instalado no vaso.

— Agora, por favor, me deixe sozinha!

Três minutos depois.

— O que... o que é isso? A água está saindo de dentro! — a voz de Moyona ecoou do banheiro, seguida pelo ruído de algo se partindo.

— O que você está aprontando? — Quando Ruby percebeu algo estranho e correu até o banheiro, já era tarde: o reservatório de água da privada estava em cacos, alagando o chão, e Moyona revirava o cômodo, procurando algo.

— Onde você escondeu o espírito da água? — indagou, agarrando Ruby pela gola, sem o menor sinal de culpa.

— Espírito?

— Só dois jeitos de se ter água em casa: magia aquática ou espírito elemental. Solte-o, já!

Moyona estava furiosa. No início, até achara que Ruby era alguém digno, mas mantinha um espírito elemental cativo! Dotada de talento mágico, até um ancião de setenta ou oitenta anos podia gerar água pura com a própria energia, por isso ninguém armazenava água em casa. Vendo, porém, que a casa de Ruby — um não-mago — estava de repente cheia d’água, só podia concluir que havia um espírito elemental prisioneiro.

No mundo dela, espíritos elementares eram manifestações tangíveis das forças mágicas do ar, normalmente muito bem ocultos, pois serviam como fontes de mana para pesquisa e meditação, sendo disputadíssimos entre magos.

— Maldita selvagem, escute: isso se chama caixa d’água, entendeu? Serve para guardar e liberar água, compreende?

Ruby já estava farto — eis por que preferia viver longe da cidade. Explicar ciência a esses selvagens só resultava em olhares de incompreensão.

— É verdade?

— Não acredita? Procure à vontade por tal espírito.

— Está bem, eu errei. Se quebrei algo, vou pagar — Moyona vasculhou o banheiro, mas não encontrou nada, e, refletindo melhor, percebeu que a energia de um espírito elemental seria sentida até por um aprendiz de magia; era impossível escondê-lo.

— Tome o remédio.

Ruby podia desprezar os selvagens em palavras, mas suas ações eram gentis: colocou os comprimidos que preparara sobre a mesa, serviu água e foi preparar o jantar.

— Argh, que amargo! — Moyona mal colocou o comprimido na boca e já sentiu o sabor insuportável, apressando-se a beber água. Lançou a Ruby um olhar ressentido, desconfiada de algum tipo de vingança, mas logo o viu aproximar-se de uma plataforma, girar um interruptor e, de repente, chamas surgiram debaixo dela.

— O fogo saiu de dentro... será um espírito do fogo? — Moyona ficou fascinada ao ver a plataforma acender sozinha e se aproximou de Ruby, curiosa.

— Se ousar desmontar meu fogão a gás, ponha-se já para fora! — Ruby adiantou-se, ameaçando-a com severidade.

— Está bem, não vou mexer, por que tanta raiva? — Moyona fez beicinho e foi sentar-se no sofá. Desde pequena, só seu mestre a repreendera daquele modo, mas o tom de Ruby a fez sentir uma estranha nostalgia.

— Que aroma delicioso!

Logo o cheiro da comida atraiu Moyona de volta à cozinha. A fragrância que emanava da frigideira era irresistível: o macarrão, já cozido, estava envolto por um molho vermelho, e Ruby misturava pedaços de carne de fera mágica, deixando-os bem incorporados; por fim, cobriu tudo com um ovo frito da mesma carne. Moyona, de estômago vazio, engoliu saliva.

— Espaguete — Ruby respondeu secamente.

Moyona voltou ansiosa ao seu lugar, sentando-se docilmente, à espera de alimento.

— Só isso que vai me dar para comer?

A realidade era cruel: suas sobrancelhas brancas quase se uniam de frustração ao ver o mingau branco à sua frente, enquanto Ruby se regalava com espaguete. O descontentamento era evidente.

— Seu estômago está ferido.

— Maldição, maldição, maldição... — Moyona sabia muito bem do seu estado; já havia vomitado sangue, não podia bancar a forte, mas jurou que um dia haveria de provar daquela iguaria desconhecida.

— Terminou? Então...

Após sorver a última gota do mingau, Moyona limpou os lábios e se aproximou de Ruby, erguendo a mão. — Magia Avançada: [Montanha].

Com os remédios, poções e alimento, seu corpo já se recuperara um pouco; magias simples não mais lhe eram proibidas, afinal, era herdeira do poder dos Arquimagos.