Capítulo 1 – Provocação
— Case-se comigo.
A voz do homem trazia consigo uma satisfação lânguida, envolta em preguiça, mas no tom... mais parecia uma ordem do que um pedido.
Sang Ke conteve o sarcasmo nos lábios, lançando de soslaio um olhar ao cavalete onde repousava a tela inacabada.
Embora os traços do rosto ainda não estivessem delineados, a linha resoluta do maxilar, a pinta na base do pescoço e os músculos abdominais, parcialmente velados pela toalha de banho, denunciavam sem margem para dúvidas quem era seu modelo: o homem a seu lado.
No chão, as roupas misturavam-se à toalha, explicando por que motivo interrompera a pintura tão subitamente.
Aquele homem era sempre assim: quando desejava algo, pouco lhe importava a recusa dela.
Mas, afinal, se é bonito e hábil, para que exigir mais? Quem precisa de bicicleta?
Casar-se, porém, estava fora de questão.
Sang Ke mantinha a lucidez. — Você me conhece? E já quer casar comigo.
A luz do luar filtrava-se pelas cortinas alvas, repousando sobre os cachos castanho-açucarados de seus cabelos. Embora dotada de uma beleza delicada, preferia maquilhagem forte, como uma sereia velada por uma bruma, impossível de decifrar.
O homem fitou-a e, subitamente, sentiu que, se não a segurasse, ela se dissiparia nos ares.
— Depois do casamento, teremos tempo de sobra para nos conhecermos.
E, sem hesitar, deslizou o anel em seu dedo anelar, imbuído de uma autoridade irrefutável.
Quando Sang Ke tentou retirar o anel, a mão dele prendeu-lhe o pulso.
Nesse instante, o toque do telefone rompeu o silêncio.
Ao atender, o semblante de Sang Ke transfigurou-se; imediatamente, reservou uma passagem de volta ao país.
— Quem era? — indagou o homem, a testa franzida.
Vestindo-se apressada, ela recolheu a bagagem. — Uma professora do acampamento de verão. Meu filho desmaiou durante o treinamento. Preciso voltar imediatamente.
O rosto dele escureceu de imediato, tornara-se uma sombra carregada de fúria.
— Para me rejeitar, inventa até uma desculpa dessas?
Sang Ke jamais imaginara que, após um mês de convivência, a única verdade que lhe proferia seria tida como mentira.
— Se quer acreditar nisso, nada posso fazer. Estes dias foram agradáveis; que cada um siga seu caminho sem mágoas — disse, sorrindo. Ao pensar que, depois de atravessar o Atlântico, jamais voltariam a se encontrar, partiu sem peso algum no coração.
No instante em que a porta se fechou, escutou a voz irada do homem atrás de si:
— Song Linlang, eu não sou alguém que você possa provocar impunemente! Quando resolver meus assuntos aqui e voltar ao país, exijo uma explicação.
Sang Ke não se deteve naquela ameaça.
Ele jamais a encontraria.
E não era só o nome.
Desde o princípio, tudo o que sabia sobre ela era mentira.
Quando o avião rompeu as nuvens, Sang Ke deixou para trás tudo o que ali vivera.
Apertava com força nas mãos o acordo de divórcio, ansiosa apenas por como explicaria ao filho sua fuga silenciosa para o exterior.
O tempo parecia retroceder um mês...
— Sang Ke, você sabe muito bem: não fosse aquela criança que você não conseguiu abortar, minha mãe jamais teria me obrigado a casar com você. Nós já teríamos nos separado.
— Eu amo Linlang. Agora que ela está grávida, não posso mais fazer com que ela sofra. Seja sensata e assine o divórcio. Se fizer escândalo e manchar meu nome, não espere um centavo de mim!
Era o quinto ano de seu casamento secreto. O marido, Pei Xuyun, conquistara o prêmio máximo no cinema e, ao voltar da cerimônia, proferiu aquelas palavras.
Song Linlang estava presente, aninhada nos braços dele, segurando o troféu ainda quente.
Pei Xuyun esquecera-se de tudo: dos dias em que, na pobreza, ele só tinha um pacote de miojo por dia, e ela, exausta, trabalhava para financiar o sonho de torná-lo astro. Esquecera-se também de que, em um distante Dia dos Namorados, prometera-lhe entregar o primeiro grande prêmio que conquistasse.
Foram criados juntos, viveram três anos de doce romance. Até Sang Ke engravidar e, sob pressão da sogra, ser forçada ao casamento. A partir de então, o afeto se rompeu — fenda que só se ampliou quando, após o matrimônio, ele partiu para estudar no exterior e reencontrou Song Linlang.
Naquela época, Sang Ke não tinha como acompanhá-lo nem forças para salvar o casamento.
Grávida, ainda estava no terceiro ano da universidade.
Órfã, viu-se perdida diante da situação. Sem dinheiro, sem coragem de ir ao hospital, recorreu a remédios clandestinos. O procedimento foi malfeito. Quando se deu conta, o bebê já tinha cinco meses — tarde demais para abortar.
Quando o filho nasceu, Pei Xuyun estava fora do país. Ela passou sozinha pelo umbral da morte e voltou, exaurida.
Mal terminara o resguardo, a sogra sofreu um acidente, ficou presa a uma cadeira de rodas. Sang Ke abandonou os estudos para cuidar do filho e da sogra.
Durante quatro anos de especialização de Pei Xuyun, não receberam dele um centavo. Ela sustentou a casa com trabalhos temporários, economizando até o último centavo.
Quando, por fim, ele regressou, trazia consigo Song Linlang.
No ano seguinte, os dois não se furtaram de aparecer juntos em todo tipo de evento público, e embora não houvesse anúncio oficial, já eram tidos como casal pelos jornais.
Sang Ke só via o marido pela televisão ou nos jornais; até uma ligação era um feito raro.
Agora, ele alcançara o auge.
Quem o acompanhava à premiação não era ela.
Quem segurava o troféu, tampouco era ela.
A Sang Ke restava apenas o acordo de divórcio, e as roupas espalhadas quando a expulsaram de casa.
Entre as grades da janela, viu o marido e a amante celebrarem com o banquete que ela preparara, lavar a louça, preparar o banho da rival, poupando-a de qualquer esforço.
O vento noturno gelava seu coração.
Como uma desertora, fugiu de casa, mas não tinha para onde ir.
Anos presa naquele lar lhe roubaram o círculo social. O filho, em acampamento, só voltaria dali a um mês.
Passou a noite sentada num banco de praça; ao amanhecer, comprou uma passagem para a França.
Quando o avião pousou no aeroporto internacional da Cidade A, Sang Ke despertou do torpor das memórias e enxugou as lágrimas.
Deixando o aeroporto, foi de táxi direto ao hospital.
Ao abrir a porta do quarto, nem chegou a ver o filho primeiro; deparou-se com o homem à janela.
Pei Xuyun, de camisa branca e calças sociais, o rosto semicoberto pela máscara, não conseguia ocultar o brilho de astro.
Ela baixou os olhos, largou a mala num canto, tocou a testa do filho. — Se tem medo dos paparazzi, não venha. Esse disfarce só chama mais atenção.
Falou baixo, para não acordar o menino.
Pei Xuyun lançou-lhe um olhar: em um mês, não só mudara o penteado e a maquiagem, até o estilo de vestir era outro, o corpo exalando um viço de quem fora bem amada, renascida.
Diante de sua mudança, os olhos dele não expressaram surpresa, apenas desprezo.
— Pensa que, imitando Linlang, vou me interessar por você? Pode fazer cem cirurgias plásticas, jamais será igual a ela!
Sang Ke nada retrucou.
Não só imitara Song Linlang — durante o mês na França, usara seu nome.
O nome que, por direito, lhe pertencia.
E a ida à França foi apenas para compreender que fascínio tinha o lugar onde Pei Xuyun se transformara em menos de seis meses.
Jamais imaginou que o homem com quem brincara, sob o nome de “Song Linlang”, se apaixonaria perdidamente por ela.
A lembrança a incomodou.
Jamais se rebaixaria a ser cópia de ninguém.
Se não fosse o súbito desmaio do filho, teria desembarcado e mudado de aparência imediatamente, sem deixar vestígio daquele erro — muito menos daria a Pei Xuyun motivo para escárnio.
— O que é isso? — Pei Xuyun, de olhos de lince, notou a marca de beijo em seu pescoço e agarrou-lhe o pulso bruscamente.