Capítulo Dois: O Singular Shen Guodong
Sun Hongmei pôs as mãos na cintura, exalando uma satisfação altiva.
Sua fama de mulher briguenta era conhecida por todos, próximos e distantes. Ela não acreditava que a delicada Liu Yueru pudesse suportar sua investida.
“Vou obrigá-la a devolver o dinheiro, nem que seja à força!”
Enquanto se deleitava com esse pensamento, de repente tudo escureceu diante de seus olhos.
Uma silhueta alta e imponente ergueu-se à sua frente.
— Você... o que pretende fazer? — balbuciou Sun Hongmei, recuando um passo por instinto.
Shen Guodong se recordara: há dois dias, embriagara-se, e ao voltar para casa, derrubara a bicicleta que a família Sun Hongmei deixara no corredor.
Em consequência, Sun Hongmei exigira que Liu Yueru arcasse com os custos do conserto.
Ele causara o problema, mas a esposa é que sofrera o ônus — não havia justiça nisso.
— Shen Guodong, tomou uns goles de aguardente e quer me assustar, é isso?
Ao reconhecer Shen Guodong, Sun Hongmei suspirou aliviada e voltou a exibir sua habitual arrogância.
Apesar da estatura avantajada, ele era conhecido por sua covardia.
Num prédio onde os vizinhos viviam tão próximos, era inevitável algum atrito.
Liu Yueru, de temperamento dócil, era constantemente subjugada. Shen Guodong, porém, jamais a defendia.
Na opinião dos vizinhos, aquele homem só sabia beber e jogar.
Em razão da resignação de Liu Yueru, ninguém tinha conhecimento de que ele a agredia.
Gente boa é sempre alvo de abusos, assim como cavalos mansos são montados por qualquer um.
Com o tempo, Shen Guodong tornou-se objeto de desprezo geral.
— E então, vai ou não devolver o dinheiro? Se não devolver, continuo a te insultar, sua sem-vergonha!
Ignorando Shen Guodong, Sun Hongmei dirigiu-se a Liu Yueru, injuriando-a com o dedo em riste.
Liu Yueru tremia de raiva, mas não ousava levantar a cabeça.
Foi quando Sun Hongmei ouviu um silvo cortante.
— PÁ!
Tudo escureceu; um ardor incandescente queimou-lhe o rosto, como se um ferro em brasa a marcasse.
Um zumbido preencheu-lhe a mente.
O golpe fora tão potente que Sun Hongmei cambaleou dois passos e caiu sentada no chão.
Shen Guodong ousara esbofeteá-la!
— Você... você...!
Foram necessários cinco segundos para que Sun Hongmei compreendesse o ocorrido.
— Como se atreve a me bater? Eu vou acabar com você!
Ela despenteou os próprios cabelos num acesso de fúria e lançou-se sobre Shen Guodong.
Seu destempero e insolência sempre puseram todos em respeito.
Mas, naquele dia, deparou-se com um Shen Guodong diferente.
Após décadas de experiência e reveses nos negócios, Shen Guodong seguia uma única máxima:
“Olho por olho, dente por dente!”
Contra gente perversa, era preciso ser mais perverso ainda.
Os berros estridentes de Sun Hongmei não o abalaram.
Aproveitou o momento e desferiu-lhe outro tapa.
— PÁ!
Sun Hongmei girou sobre si mesma, atônita.
— Se insistir, eu te mato! — ameaçou Shen Guodong, avançando e fitando-a nos olhos.
— Ah... — Sun Hongmei jamais presenciara um olhar tão ameaçador.
Havia nele uma soberania indomável, um destemor absoluto.
Se dizia que a mataria, ela sabia que era capaz.
— O corredor é área comum. Quem lhe deu permissão para deixar a bicicleta aqui? Ainda quer indenização? Se ousar repetir, eu desmonto sua bicicleta.
— Fora daqui!
Sun Hongmei estremeceu por dentro; os olhos reviraram, mas não ousou responder. Com o rosto em brasa, retirou-se calada.
A imponência de Shen Guodong deixou Liu Yueru completamente atônita.
Em sua lembrança, Shen Guodong só sabia ser tirano dentro de casa, e um covarde diante dos outros.
Por que, de repente, mostrava-se firme? E, mais ainda, por ela?
— BUM.
Shen Guodong fechou a porta.
— Vou preparar seu jantar — murmurou Liu Yueru, tomada por um temor renovado.
Shen Guodong apenas sacudiu a cabeça, resignado. A má reputação deixada por sua antiga conduta só poderia ser revertida aos poucos.
Como ele dilapidara todo o patrimônio da família, restava-lhes apenas um jantar de bolinhos de milho quase intragáveis e conservas escuras e salgadas.
À noite, Liu Yueru lavou-se cedo e recolheu-se ao leito.
Ao deitar-se, o rangido metálico da cama trouxe-lhe um certo constrangimento.
Liu Yueru virou-se para a parede, o corpo encolhido.
Era o reflexo de quem carece de segurança.
Shen Guodong contemplou longamente aquela silhueta delicada, sem conseguir conciliar o sono.
Décadas de árduo labor haviam desaparecido num instante; toda a fortuna, perdida.
No entanto, a visão de futuro e a experiência acumulada eram seu maior capital.
Nesta nova vida, ao menos tinha ao lado uma esposa leal, que não o abandonara.
Era uma responsabilidade, mas também um consolo.
“A partir de amanhã, começa a minha era!”
Na manhã seguinte, Liu Yueru levantou-se cedo e foi trabalhar.
Durante todo o tempo, evitou dirigir-lhe a palavra, mantendo uma distância perceptível. Shen Guodong nada forçou; tudo a seu tempo.
Ele comeu a custo alguns pedaços do bolo de milho, mas logo desistiu — era realmente intragável.
“Preciso mudar esta situação o quanto antes”, murmurou, alisando o queixo, pensativo.
Recordara-se de que trabalhava numa fábrica de tornos.
Uma nova chance de vida não podia ser desperdiçada num ofício medíocre, desperdiçando-se em rotinas miseráveis.
Naquele Norte industrial, o ritmo de abertura ainda era lento, e as grandes empresas estatais permaneciam como o esteio da sociedade.
Além disso, possuir um vínculo com uma estatal facilitava muitos empreendimentos naquela época.
A prioridade era inteirar-se da situação, desenvolver-se temporariamente na unidade atual e, aos poucos, buscar algo maior.
Com o plano traçado, saiu de casa.
Ao casar-se, possuíam uma bicicleta da marca Fênix, mas Shen Guodong a perdera no jogo.
Por sorte, a fábrica não era distante; em meia hora, chegou ao portão principal.
“Primeira Fábrica de Tornos da Cidade de Feng.”
O letreiro resplandecente anunciava o vigor daquele estabelecimento.
Pertencente ao governo provincial, a fábrica ostentava uma história gloriosa.
Na era da economia planificada, era um símbolo da indústria pesada, fornecendo tornos confiáveis para todo o país.
Em tempos de escassez, máquinas como aquelas não estavam ao alcance de quem apenas possuía dinheiro.
Em seu apogeu, caminhões formavam longas filas à porta, aguardando para retirar mercadoria.
Compradores de todas as partes tentavam, a cada dia, garantir uma máquina para seus empreendimentos.
Produtos disputados significavam fábrica próspera.
E as condições dos operários eram excepcionais.
Em 1986, um simples trabalhador ali já podia receber oitenta e cinco yuans, além de um bônus de vinte a quarenta.
Shen Guodong, ao se formar na escola técnica, fora admitido diretamente como quadro administrativo, atraindo a inveja de muitos.
Mas, por seus excessos com a bebida e reiterados erros, desagradou à chefia, sendo rebaixado ao chão de fábrica.
Assim que entrou no setor, deparou-se com um homem de meia-idade, expressão austera, trajando uniforme cinza.
Era Jiang Weiguo, o chefe do setor.
— Chefe Jiang — saudou Shen Guodong, aproximando-se.
— Hum... — Jiang Weiguo estranhou.
Shen Guodong, desmotivado desde a transferência, parecia ter perdido o ânimo, e vivia a fugir do trabalho.
Normalmente, ao avistá-lo, encostava-se à parede e sumia de fininho.
Hoje, porém, viera cumprimentá-lo.
— Chefe Jiang, aceite um cigarro.
Mas não se limitou ao cumprimento; Shen Guodong ofereceu-lhe um cigarro da marca Mudanjiang, com filtro.
— O que você quer? Vai pedir dispensa? — desconfiou Jiang Weiguo.
— De modo algum, o senhor está enganado — respondeu Shen Guodong, sorrindo.
Jiang Weiguo aceitou o cigarro, mas não o acendeu; prendeu-o atrás da orelha.
No chão de fábrica, com tantos óleos e combustíveis, fumar era terminantemente proibido.
— Hoje, comporte-se. Não me cause problemas. Vá.
Com a expressão menos tensa, Jiang Weiguo deu a ordem, e Shen Guodong seguiu para o vestiário, acenando com a cabeça.