Capítulo Três: Crise
No canto noroeste do galpão, numa ampla sala, erguem-se duas fileiras de grandes armários que servem de vestiário.
Shen Guodong abriu o cadeado e trocou de roupa, vestindo o uniforme de trabalho.
— Guodong, à noite vamos jogar umas partidas no velho lugar, hein?
Um homem de estatura baixa, rosto afilado e olhos astutos, aproximou-se sorrateiramente.
Shen Guodong, ao ouvir a voz, franziu o cenho de imediato.
Tratava-se de Zheng Qiang, também operário do galpão, conhecido por sua astúcia, preguiça e reputação deplorável.
Naturalmente, o antigo Shen Guodong era igual a Zheng Qiang.
Zheng Qiang costumava arrastar Shen Guodong para jogos de azar.
Antes, Shen Guodong era ingênuo, viciado em apostas; quando perdia, atribuía tudo à má sorte.
Agora, porém, compreendia perfeitamente.
Era evidente que alguns o estavam usando como cordeiro para o abate.
“Aquilo que me foi furtado, está na hora de recuperar!”
Pensava Shen Guodong, mantendo exteriormente uma expressão imperturbável.
— Claro, chame todo mundo, hoje é dia de pagamento, vamos apostar alto.
Shen Guodong estampou no rosto uma expressão de ansiosa expectativa.
— Ótimo! Depois do jogo, vamos comer carne de cordeiro ao molho, eu pago!
Zheng Qiang batia no peito entusiasmado.
O galpão era vasto, dividido em mais de vinte equipes; Shen Guodong e Zheng Qiang não pertenciam à mesma, e ao sair, cada um seguiu seu caminho.
Shen Guodong nada entendia sobre torno mecânico; ao chegar ao seu grupo, manteve-se calado, apenas observando atentamente.
O chefe de equipe, Wang Dongliang, homem de cerca de trinta anos, lançou-lhe um olhar, mas nada disse.
Naquela equipe, eram sete ao todo: além de Wang Dongliang e Shen Guodong, os demais eram funcionários temporários.
Naquela época, as empresas estatais ainda não tinham mecanismos de contratação bem definidos.
Havia trabalhadores efetivos, temporários, e empregados familiares das unidades subsidiárias.
A natureza do vínculo de trabalho era diversa, assim como o tratamento recebido.
O salário dos temporários não chegava à metade do dos efetivos.
Wang Guodong era efetivo, mas não podia comandar Shen Guodong.
Afinal, Shen Guodong tinha status de “cadre”.
Por vezes, o passo de ascensão à chefia podia determinar o destino de alguém por toda a vida.
A indolência de Shen Guodong era já habitual aos demais, que ocupavam-se cada qual em suas tarefas, sem dar-lhe atenção.
Shen Guodong segurava um grande caneco de esmalte, tomava um gole de chá e balançava a cabeça.
O odor de óleo que impregnava o galpão lhe era profundamente desagradável.
“Preciso encontrar logo um jeito de voltar ao escritório.”
O chefe do galpão, Jiang Weiguo, surgiu de repente, batendo palmas e convocando todos para uma reunião.
Mais de cem pessoas formaram um semicírculo.
Jiang Weiguo postou-se ao centro, o semblante grave.
— Camaradas, a máquina número três voltou a apresentar defeito. A liderança deu ordem rigorosa: se não descobrirmos a causa, no fim do mês todos perderão o bônus!
Tal declaração provocou uma onda de inquietação.
Naqueles tempos, o custo de vida era baixo; até carne de porco custava apenas oitenta centavos por quilo.
Um bônus de vinte ou trinta yuan já era uma fortuna.
Perder o bônus seria motivo de grande pesar.
— Todos devem pensar juntos, ver se conseguem uma solução, é preciso agir com urgência!
Jiang Weiguo sondou o grupo com o olhar, mas ninguém se manifestou.
— Camaradas, a máquina número três é o projeto principal da fábrica este ano. Para importar sua linha de produção, foram gastos altos valores em moeda estrangeira.
— Acaso, diante de um problema, todos recuam?
Jiang Weiguo estava visivelmente ansioso.
A indústria pesada nacional, inicialmente, herdara técnicas do país do Urso do Norte.
Nos últimos anos, porém, com o declínio do Urso, a tecnologia ficara muito aquém do Ocidente.
Após cuidadosa deliberação, a liderança decidira importar uma linha de produção da Smith Company, dos Estados Unidos.
Tal linha, no país de origem, era produto intermediário, mas aqui representava o ápice da tecnologia.
Produzindo tornos de qualidade, poderiam dominar o mercado nacional e, quem sabe, exportar para o Leste Europeu, África e outras regiões.
Todavia, após a instalação, a linha demonstrou incompatibilidade com o ambiente local.
A máquina número três, em especial, apresentava pequenos defeitos continuamente.
Contratar engenheiros americanos era excessivamente caro.
Além disso, a agenda deles só permitia visita em seis meses!
Difícil saber como se deram as negociações de comércio exterior e compras.
Não faltavam rumores de que haviam sido ludibriados, tratados como ingênuos.
O vice-diretor Xu Haishan, que advogara pela importação, encontrava-se sob intensa pressão.
O velho diretor estava prestes a se aposentar, e Xu enfrentava concorrentes poderosos.
O êxito ou fracasso do projeto era crucial.
Nas últimas reuniões da diretoria, Xu tornou-se alvo de críticas, sempre em posição desconfortável.
Jiang Weiguo, chefe do galpão, fora promovido por Xu Haishan; seus destinos estavam entrelaçados.
Com o problema nos tornos, era natural que Jiang estivesse apreensivo.
O ambiente tornou-se silencioso; ninguém ousava falar.
— Chefe Jiang, acho que fomos enganados pelos estrangeiros! Aqueles manuais são confusos, quem pode compreendê-los?
— Não sabemos operar, como produzir tornos de qualidade?
— Isso mesmo, não é culpa nossa; por que tirar nosso bônus?
Assim que um se manifestou, todos começaram a discutir, vozes se sobrepondo.
O semblante de Jiang Weiguo escureceu ainda mais.
Era evidente o ressentimento dos operários.
E todos inclinavam-se a crer que a fábrica fora enganada, importando uma linha de produção defeituosa.
A situação era delicada; se não fosse contida, na próxima assembleia dos funcionários alguém certamente atacaria Xu Haishan.
Consciente da gravidade do problema, Jiang Weiguo interrompeu a discussão, anunciou o fim da reunião e, pensativo, retornou ao escritório.
Logo, alguém bateu à porta.
— Entre.
Jiang Weiguo tinha as sobrancelhas cerradas, tomou um gole de chá forte.
— Chefe Jiang.
Shen Guodong adentrou.
— Veio tratar de algum assunto?
Jiang Weiguo ergueu o olhar.
— Tenho algumas ideias sobre a linha de produção da máquina número três.
Shen Guodong sorriu suavemente.
— Você entende de tornos?
Jiang Weiguo não escondeu sua dúvida.
Afinal, Shen Guodong nada aprendera durante o tempo no galpão.
E mesmo que tivesse estudado, seria capaz de superar os mestres experientes?
— Não entendo de tornos, mas conheço o inglês.
Shen Guodong, recorrendo à memória, já havia analisado toda a situação.
Percebera com acuidade que o caso da máquina número três era complexo.
Talvez, ali estivesse a chance de um avanço em sua carreira.
— Poderia ver o manual da linha de produção?
Como presidente de uma empresa de comércio exterior, Shen Guodong dominava o idioma de mais de dez países, além de se virar com expressões cotidianas de muitos outros.
Jiang Weiguo lembrou-se então de que Shen Guodong era formado em escola técnica.
— Escola técnica ensina inglês?
Murmurou, mas virou-se, abriu o armário e retirou uma pilha de documentos.
Era como tentar ressuscitar um cavalo morto.
Naqueles tempos, graduados de escola técnica eram talentos de alto nível, com emprego garantido; com essa credencial, muitas ações de Shen Guodong tornavam-se compreensíveis.
Ele pegou o manual original e a versão traduzida.
Bastaram alguns olhares, e sua expressão tornou-se grave.