Capítulo 1: A Deusa Sedenta de Sangue
— Vamos, daqui a pouco alguém virá fazer seu depoimento. Até lá, fique quieto aí dentro.
Com um estrondo metálico, o portão de grades foi fechado por um policial e trancado com firmeza. O corpo esguio de Lin Si estremeceu levemente; em seu rosto delicado, uma sombra de desalento, o olhar perdido, sem um traço de vivacidade — como se lhe tivessem roubado a própria alma.
Ele sentou-se, desolado, contemplando a cela individual de menos de dez metros quadrados no interior da delegacia, sentindo-se como se estivesse imerso em um sonho.
Meia hora antes, ainda passeava com sua deusa, Lü Xiangting, num recanto do campus; agora, inexplicavelmente, encontrava-se ali, detido — a diferença era tamanha que beirava o insuportável.
Diante do abatimento de Lin Si, um homem careca sentado na cama da cela oposta lançou-lhe um olhar de soslaio, esboçando um sorriso malandro antes de perguntar:
— Ei, camarada, o que você fez para parar aqui?
Lin Si abriu levemente os lábios, fitando diretamente o homem, e respondeu, hesitante:
— Ma...tei... alguém...
— Matou alguém?
No escritório, um jovem policial observava os dados de Lin Si no computador e de repente comentou com o capitão ao lado:
— Capitão Liu, esse tal de Lin Si parece tão educado, não tem jeito de assassino.
— Xiaofeng, você ainda tem pouca experiência. Não se julga caráter pela aparência. O que importa na investigação são as provas. Agora, as evidências são irrefutáveis, há testemunhas oculares, e na cena do crime apenas as impressões digitais do rapaz e da moça. Até a arma do crime tem impressões dele. Não há como escapar da acusação de homicídio doloso. O problema é...
O outro detetive, um homem de meia-idade, franzia o cenho.
— O que é, afinal?
— O motivo — respondeu, após breve pausa. — Lembra que quando chegamos à cena, o rapaz parecia em choque, transtornado? Assim, não há como interrogá-lo direito, e o motivo permanece obscuro. Depois de colher o depoimento, chame o pessoal da perícia psicológica.
— Certo, vou organizar o histórico dele e avisar a família.
— Faça isso.
O olhar do detetive voltou-se, involuntariamente, para os relatórios à sua mesa. Era o sétimo caso estranho de assassinato em três dias; uma sensação de inquietação o dominava, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer.
Na cela, o careca ficou atônito ao ouvir Lin Si pronunciar "matei alguém", e, após breve hesitação, exclamou:
— Rapaz, não pensei que você fosse tão barra-pesada! Foi homicídio culposo ou...
Sem se importar se Lin Si o escutava, tagarelava animado, como se tivesse aberto o baú das palavras. Lin Si, porém, não prestava atenção; as palavras "matei alguém" ressoavam em sua mente como um feitiço.
O tempo então recua para meia hora antes: Lin Si se encontrava num canto isolado do muro da escola. Do outro lado, sua paixão secreta, Lü Xiangting, acenava para ele:
— Ainda aí parado? Venha logo.
Naquele dia, Lü Xiangting trajava um vestido de gaze branca, mais pura e encantadora do que nunca. O sorriso e o aceno faziam o coração de Lin Si vibrar; ele, atônito, respondeu e se aproximou. Planejava, naquela noite, ver com ela um filme romântico e se declarar, mas, para sua surpresa, ela recusou o cinema e o arrastou de volta ao colégio.
Por causa das férias de verão, a escola estava quase deserta ao entardecer. Lü Xiangting, animada, puxou-o rumo ao ginásio. O local estava em obras; barras de ferro e sacos de cimento intactos jaziam ao redor, tratores e betoneiras estacionados, prenunciando a iminência da construção.
— Xiangting, por que me trouxe aqui? — perguntou Lin Si, envergonhado, sem ver ali qualquer beleza digna de nota.
Porém, o silêncio era propício... Será que a deusa desejava algo ali? O coração de Lin Si acelerou ante a expectativa.
Lü Xiangting, serena como uma orquídea, virou-se, aproximou-se do ouvido de Lin Si e murmurou suavemente:
— Porque aqui é silencioso, apropriado para certas coisas.
Lin Si ficou surpreso; em seguida, a alegria explodiu em seu peito. Seria possível? Xiangting também gostava dele? Queria... ali mesmo?
Ela o fitou com um brilho travesso nos olhos, apoiou delicadamente a cabeça no ombro de Lin Si e, com voz grave, disse:
— Na verdade, já faz tempo que te observo. Você é especial, Lin Si. Não sei quando começou, mas seu cheiro me atrai profundamente. Seu aroma me excita, e toda vez que o sinto, mal posso conter o desejo de... te devorar.
Lin Si ouviu, confuso, enquanto uma voz interior gritava: O que está acontecendo? Xiangting está se declarando para mim?
— Xiangting, eu... eu também gosto muito de você — exclamou Lin Si, abraçando-a com força, a voz trêmula de emoção.
A expressão de Lü Xiangting tornou-se estranha; sob o céu noturno, seus olhos foram tomados por um brilho carmesim e sangrento:
— Sério? Então, que nos tornemos um só...
— Tão depressa? — murmurou Lin Si, constrangido. — Mas aqui não parece muito adequado... talvez outro dia...
Um grito agudo cortou o ar. Uma dor lancinante atravessou o ombro de Lin Si. Ele olhou para a jovem que mantinha o rosto enterrado em seu ombro, e seus olhos se arregalaram de horror ao perceber o sangue manchando sua camiseta. Atônito, balbuciou:
— Xiangting, o que você está fazendo?
Lü Xiangting ergueu a cabeça, a boca suja de sangue, o olhar selvagem e excitado:
— Não disse agora há pouco? Quero te devorar! Não quer se fundir a mim?
— Hahaha, ainda não entendeu? Você é meu alimento.
— Alimento? Xiangting, você enlouqueceu? Sabe o que está fazendo?
Aterrorizado, Lin Si cambaleou para trás, tropeçou em algo e caiu sentado ao chão.
Lü Xiangting gargalhou de maneira sinistra, apontando para ele:
— É claro que sei o que faço. Afinal, o banquete já começou!
Mal terminou de falar, o braço de Lü Xiangting começou a contorcer-se, estendendo-se e deformando-se. Quando cessou a metamorfose, o braço transformara-se numa criatura semelhante a uma serpente, de boca escancarada e dentes afiados à mostra, sem olhos nem escamas, como uma cobra despelada, horrenda.
Ao ver a monstruosidade em que sua amada se convertera, Lin Si tentou desesperadamente fugir, mas Lü Xiangting, com o braço-serpente, arremeteu contra ele.
Sem poder esquivar-se, Lin Si ergueu instintivamente o braço esquerdo para se proteger. Os dentes monstruosos cravaram-se em seu antebraço com um estalo seco, arrancando-lhe a mão de uma só vez. O braço-serpente retraiu-se, mastigando vorazmente, enquanto Lü Xiangting exibia um êxtase insano:
— Que delícia! De todos que provei, tua carne e sangue são os mais saborosos! Mas quero mais... muito mais!
— Monstro! — gritou Lin Si, apavorado, contemplando o coto sangrento do braço, o osso à mostra. Gritando de dor, pôs-se a rastejar para longe. O que está acontecendo? É um pesadelo? Se for, por favor, deixe-me acordar!
— Lin Si, não disseste que gostava de mim? Por que agora me olhas assim, com medo? Virar as costas à garota de quem gosta é tão indelicado...
A voz de Xiangting soou zombeteira em seu ouvido. Antes que pudesse ir longe, Lin Si sentiu algo atingi-lo pelas costas, arremessando-o contra um monte de vergalhões de aço.
Gemendo de dor, fitou Xiangting com olhos esbugalhados. Viu, então, o braço-serpente investindo novamente contra ele. Rolou no chão; o braço monstruoso mordeu os vergalhões, partindo-os como palitos. Um deles rolou até sua mão. Xiangting saltou em sua direção. Sem tempo para pensar, Lin Si agarrou o vergalhão, gritando:
— Não se aproxime!
Vendo que Xiangting não recuava, Lin Si, tomado pelo desespero, avançou e cravou o ferro em seu ventre. O sangue escorreu, tingindo o metal. Xiangting olhou para o ferimento, depois para Lin Si, o rosto transfigurado pela ira:
— Menino desobediente. Preciso te castigar.
Percebendo o perigo, Lin Si largou o vergalhão e fugiu, transtornado. Xiangting, como se nada tivesse ocorrido, levantou-se e puxou o ferro da barriga.
Lin Si lançou-lhe um olhar por sobre o ombro e viu-a arrancar o vergalhão, lançando-o ao chão, e, num instante, aproximar-se com velocidade espantosa.
Em poucos segundos, Xiangting, num frenesi insano, já o alcançava. Lin Si correu até uma escavadeira, entrou na cabine e trancou a porta com força. Xiangting atirou-se contra a cabine, usando o braço-serpente para arrombá-la. Lin Si se escondeu sob o banco. Ao levantar os olhos, viu a chave na ignição. Num lampejo, ligou a máquina e acelerou; a escavadeira avançou com violência, arremessando Xiangting para longe.
Tomado pelo terror, Lin Si subiu ao banco, espiou pela janela e viu Xiangting se levantar. Sua mente, de súbito, clareou. Pisou fundo no acelerador, guiando a escavadeira diretamente na direção dela. A lâmina dentada cravou-se no peito de Xiangting, empurrando-a para frente.
A escavadeira atravessou o canteiro de obras, cruzou uma rua e chocou-se violentamente contra o prédio escolar em frente!
Com o impacto, Lin Si foi lançado para fora da cabine, caindo com um baque surdo na pá da escavadeira. Por alguns segundos, tudo ficou em branco. Quando recobrou os sentidos, viu diante de si o rosto perplexo de Xiangting. Sobressaltado, ergueu-se na pá e viu que a jovem fora empalada pelos dentes da lâmina, cravada na parede, sem qualquer sinal de vida.
— Ela está morta? — murmurou Lin Si, trêmulo. Estendeu a mão direita até o nariz da moça; nenhum vestígio de respiração. Exausto, tombou na pá da escavadeira. Logo, feixes de luz de celulares cortaram a escuridão, acompanhados de gritos:
— Mataram alguém! Chamem a polícia!
Lin Si, com a expressão petrificada, fitava o toco sangrento do braço, até que a consciência se perdeu nas trevas.
Ao despertar, viu um jovem policial inclinando-se sobre ele, batendo-lhe suavemente o rosto, o distintivo da polícia reluzindo sob a luz do poste.