Capítulo Três: O Exército dos Zumbis
À noite, Buffon foi inspecionar o depósito frigorífico onde se armazenavam os cadáveres.
Ele se recordava com nitidez: a numeração da legião de zumbis de Moria findava no 900. Se tal constatação fosse verdadeira, significaria que, ao longo desses dez anos, jamais se produziram mais do que novecentos bonecos zumbis a bordo do navio. Considerando sua atual cadência de trabalho—e sem sequer contar aqueles que já estavam prontos—, não seria suficiente nem para um ano de suas costuras. Se assim fosse, teria de cogitar outros caminhos.
No entanto, ao adentrar o frigorífico, Buffon sossegou: os doze compartimentos estavam abarrotados de corpos! Apenas os cadáveres de nível generalato, por ora, Moria ainda não permitia que fossem tocados.
Buffon suspeitava que a limitação numérica até o 900 estava intrinsecamente ligada àquele médico mercenário, Hogback. Se ao menos fosse um pouco mais diligente, tal cenário não ocorreria!
Hogback, tido como um prodígio da cirurgia, conquistara fama e prestígio ao operar milagrosamente e salvar inúmeros pacientes, mas, na verdade, era um médico deplorável, para quem o dinheiro valia mais que a vida. Anos atrás, após a atriz Victoria Cindry, por quem nutriam secreta paixão, tombar fatalmente do palco, Hogback mergulhou em desalento. Mais tarde, Moria propôs uma aliança, prometendo-lhe a ressurreição de Cindry.
Assim, Hogback furtou o cadáver de Cindry, reforçou-o com aprimoramentos bélicos e permitiu que Moria, inserindo-lhe uma sombra, a ressuscitasse.
Os zumbis que recebiam sombras de Moria herdavam a personalidade e as habilidades combativas do dono da sombra. Ao firmar um pacto que os dissociava de sua natureza original, a sombra perdia as memórias do hospedeiro. Quanto mais durava a fusão entre sombra e corpo, mais o zumbi passava da rebeldia inicial à obediência absoluta.
Ao ponderar sobre isso, Buffon percebeu um ponto: a maioria daqueles privados de suas sombras provavelmente ainda vivia naquele navio pirata, vasto como uma ilha, onde jamais se via a luz do sol.
E então...
Nesse instante, o Den Den Mushi que trazia consigo vibrou. Ao pressionar o botão, a voz de Hogback ressoou da pequena criatura envolta em meia-arrastão:
— Moshimoshi, Buffon, leve alguns bonecos ao Depósito de Produtos Acabados número 4. Aqueles indivíduos vieram novamente tentar recuperar suas sombras.
Buffon replicou:
— Qual o alvo desta vez?
— O número 833! Leve quantos quiser, basta dispersar o poder de combate deles.
Desligando o Den Den Mushi, Buffon pôs-se a caminhar, sem pressa, rumo ao depósito número 4. Pelo trajeto, pensava que, se ao menos o “guarda-costas” Ryuma já estivesse pronto, não caberia a ele a tarefa de coordenar o exército de zumbis. Perona ainda era jovem. Quanto a Absalom, seu nível provavelmente não justificava intervenção.
Ao passar pelo laboratório, Buffon chamou os zumbis 403, 523 e 518 para acompanhá-lo. Quanto à possibilidade de vitória, jamais se preocupara: aqueles sobreviventes eram apenas carne de treino arranjada por Moria para os zumbis. Sua presença ali era quase a de um comissário.
Ao chegar, Buffon deparou-se com o número 833, um colosso de quase três metros, portando luvas metálicas que, ao se chocarem, ressoavam um “clang” imponente. Pelo critério de Buffon, tal criatura deveria figurar ao menos no nível T5 no “Almanaque dos Personagens”, condizente com sua numeração.
No exército de zumbis de Moria, quanto maior o número, maior o poder. Os zumbis animais, numerados de 0 a 199, patrulhavam e guardavam, sob comando de Perona, uma das três aberrações. Os zumbis assustadores, do 200 ao 399, também sob seu domínio, costumavam ocultar-se em quadros, fotos, ou disfarçar-se como espécimes e ornamentos. Já os zumbis soldados, do 400 ao 799, sob Absalom, eram os mais numerosos e variados. Os zumbis generais, do 800 ao 899, constituíam a elite. O zumbi especial, de número 900, era o próprio demônio Oz.
Por ora, contudo, o exército ainda não atingira tal magnitude; muitos números permaneciam vagos. O corpo de Oz, inclusive, Moria ainda não recuperara.
Entre os atacantes, um sujeito musculoso, vestindo regata de halterofilista e luvas de boxe, exibia golpes idênticos aos de 833. Mas a diferença de porte era brutal: o homem mal chegava a dois metros, sendo superado em força e alcance pelo gigante zumbi.
— Este deve ser o dono da sombra de 833 — conjecturou Buffon.
A um gesto seu, os três zumbis acompanhantes irromperam no combate, aliviando a pressão sobre 833. Embora desarmados, pelo estilo de luta era nítido que os donos das sombras eram especialistas em artes marciais. Não levavam vantagem, mas sustentavam o embate com dignidade.
O essencial era que tais zumbis não temiam lâminas ou armas; caso fossem danificados, Hogback podia remendá-los... Não, agora era função de Buffon costurá-los de volta.
Todavia, não eram invulneráveis: o ponto fraco era o sal. Zumbis animados pelos poderes da Akuma no Mi eram purificados caso lhes fosse introduzido sal, portador da energia do mar, pela boca. Se o dono original da sombra morresse, a sombra sumia e o zumbi tombava.
Diante do reforço zumbi, um dos opositores praguejou:
— Buffon, cão do Moria! És um vivo, mas age pior que um morto. Devolve nossas sombras!
Buffon fitou-o impassível, suspirando em pensamento:
“Insensatos... Mesmo que eu vos devolvesse as sombras, teríeis chance de escapar deste navio, tumba flutuante? Se nem um zumbi general conseguireis vencer, por que não sobreviver em silêncio até que, passados dez anos, eu vos leve embora?”
Ignorados, os homens sacaram lâminas e avançaram contra Buffon, crendo que, ao capturá-lo, forçariam a parada dos zumbis.
Buffon riu com frieza; seus olhos tornaram-se gélidos e cruéis. Se antes era o estrategista calculista, agora transfigurava-se em um general impiedoso.
Com visão de grau superior, Buffon enxergava os movimentos alheios como se folheasse storyboards; nem o mais sutil tremor muscular lhe escapava ao olhar azul.
Dominando tal habilidade, seria quase como possuir uma versão reduzida do Haki da Observação.
Um adversário desferiu-lhe um golpe de lâmina; Buffon, guiado pelo instinto, esquivou-se e, com o punho já carregado, acertou o abdômen do atacante—usando apenas uma fração de sua força, para testar. Ainda assim, o homem, de tamanho semelhante ao seu, foi arremessado ao longe.
Buffon recolheu o braço e avaliou: em termos do “Guia de Capacidades”, o homem mal alcançava o nível T8. Diante disso, Buffon perdeu todo o interesse, cruzando os braços para observar o desenrolar do combate. Se visse a debandada dos inimigos, ordenaria o cessar dos zumbis.
Os adversários, impressionados com a ferocidade de Buffon—tão diferente do estrategista retraído de outrora—, sentiram um mau presságio.
Alguém gritou:
— Usem o sal! Façam a sombra de Kuys recobrar a consciência, que ele ataque Buffon!
O boxeador entendeu; aproveitou uma brecha e lançou sua luva em direção ao rosto de 833. O zumbi, ao perceber tratar-se de uma luva comum, não desviou. Mas, para surpresa geral, havia sal oculto dentro das luvas, que, ao acertarem o rosto do zumbi, lançaram o conteúdo direto em seus olhos.
Embora a quantidade não bastasse para devolver a sombra ao corpo original, foi suficiente para restaurar, por um instante, a consciência do dono. Nesse momento, a sombra de 833, temporariamente desperta, fez com que o zumbi de nível T5 avançasse ferozmente contra Buffon, unindo as luvas metálicas e desferindo um golpe devastador à cabeça do oponente.
Pegado de surpresa, Buffon não teve tempo de esquivar-se; instintivamente, ergueu o punho e aparou o ataque.
No exato momento em que punhos se chocaram, ouviu-se um estalo agudo—mas não era o braço de Buffon que se partia, e sim as luvas metálicas de 833 que se despedaçavam.
Os agressores, testemunhando a cena, perderam toda a coragem e bateram em retirada.
Com a mão dormente da pancada, Buffon, contrariado, curvou-se e, acumulando energia, desferiu um soco certeiro no queixo de 833. Embora o zumbi, por ser de quase três metros, não voasse como o homem anterior, foi erguido meio metro do chão e tombou inconsciente.
Massageando o punho, Buffon lamentou:
— Deveria ter batido mais forte, para te abrir um ferimento e poder costurá-lo de novo...
Dito isso, arrastou com uma só mão o corpo inerte de 833 em direção ao laboratório.
— Não que importe se não tens feridas externas. Aquelas horríveis suturas antigas em teu corpo precisam ser refeitas, de qualquer forma!